Mesa reuniu representantes do Dieese e movimento sindical para discutir os impactos dos programas de remuneração variável sobre as condições de trabalho, a saúde dos empregados e a valorização dos resultados da Caixa
A remuneração variável, os programas de metas e seus impactos sobre a saúde dos trabalhadores foram tema da terceira mesa de debates do 41º Congresso Nacional dos Empregados da Caixa (Conecef), quinta-feira (18).
O debate ocorreu em um momento em que os empregados da Caixa acompanham as mudanças promovidas pelo banco nos programas de remuneração variável, especialmente após a implantação do Super Caixa, que substituiu mecanismos anteriores de premiação e passou a vincular parte da remuneração a indicadores corporativos e resultados das unidades.
PLR é conquista histórica e difere de programas de remuneração variável
Ao apresentar a evolução dos modelos de remuneração utilizados pelo setor financeiro, Catia Uehara destacou que a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) da categoria bancária é resultado de décadas de organização e negociação coletiva, possuindo regras específicas previstas em lei e na Convenção Coletiva de Trabalho dos bancários.
Segundo ela, é importante diferenciar a PLR das demais formas de remuneração variável adotadas pelos bancos. “A PLR é uma conquista histórica dos trabalhadores bancários e possui regras negociadas coletivamente. Já os programas de remuneração variável e de premiação atendem a outras lógicas, normalmente vinculadas ao desempenho, às metas e a resultados definidos pelas empresas”, explicou Catia.
A economista ressaltou ainda que os programas de remuneração variável se expandiram no sistema financeiro a partir dos processos de reestruturação produtiva ocorridos nas últimas décadas, acompanhando mudanças na gestão das empresas e na organização do trabalho.
Para Catia, a principal preocupação dos trabalhadores deve ser garantir que eventuais programas de resultados tenham critérios transparentes, negociados e capazes de distribuir os ganhos produzidos coletivamente pelos empregados.
Metas e remuneração variável ampliam pressão sobre os trabalhadores
Na sequência, Mauro Salles abordou os impactos dos modelos de gestão baseados em metas, avaliação permanente e remuneração variável.
Segundo o dirigente da Contraf, os programas não podem ser analisados isoladamente, pois fazem parte de um sistema que conecta metas, avaliação de desempenho, carreira, reconhecimento e punição.
“Quando a remuneração variável é associada a metas cada vez mais elevadas, avaliações permanentes e mecanismos de vigilância, o resultado é o aumento da pressão sobre os trabalhadores. Isso intensifica o ritmo de trabalho, amplia situações de assédio e contribui para o adoecimento”, afirmou Mauro Salles.
Durante a apresentação, ele destacou que os bancários normalmente não participam da definição dos objetivos que precisam cumprir e que o modelo transfere para o trabalhador responsabilidades relacionadas às condições de mercado, à estrutura das equipes, sendo que as decisões são impostas por decisões superiores, da empresa.
Mauro também alertou para situações consideradas abusivas, como metas excessivas, vigilância permanente, avaliações injustas e mecanismos que penalizam trabalhadores por fatores que não estão sob seu controle.
“Não é apenas o excesso de trabalho que adoece. O problema está na forma como o trabalho é organizado, medido e controlado. O adoecimento não é um acidente. Ele pode ser consequência previsível de determinados modelos de gestão”, observou.
Movimento sindical cobra transparência e negociação
As discussões realizadas no Conecef dialogam com críticas que vêm sendo apresentadas pela representação dos empregados da Caixa desde a implantação do Super Caixa.
Entre os principais pontos levantados pelas entidades estão a falta de transparência em alguns indicadores, a utilização de critérios considerados punitivos, a existência de fatores de difícil controle pelos trabalhadores e a necessidade de regras mais simples e previsíveis.
A defesa das entidades é que programas de remuneração variável sejam construídos por meio da negociação com a representação dos empregados, com critérios claros, respeito ao princípio de “vendeu, recebeu”, previsibilidade dos resultados e valorização do trabalho realizado pelos empregados.
Para os participantes da mesa, o debate sobre remuneração variável não pode ser dissociado da discussão sobre condições de trabalho, saúde dos trabalhadores e papel estratégico da Caixa para o desenvolvimento do país.
“O desafio é construir mecanismos de reconhecimento dos resultados sem transformar a remuneração em instrumento de pressão permanente. A valorização dos empregados passa por condições dignas de trabalho, transparência e participação nas decisões que afetam seu cotidiano”, concluiu Mauro Salles.