O grito das Mães de Maio por justiça e penalização dos agentes do Estado
Santos – O mês de maio de 2026 carrega o peso de um aniversário sombrio para a democracia brasileira. Há exatas duas décadas, o estado de São Paulo testemunhou um dos maiores massacres de sua história moderna. O que deveria ser um período de memória e reparação, entretanto, consolidou-se como um marco de impunidade. Diante deste cenário, o Movimento Independente Mães de Maio convoca a sociedade para um ato político no dia 17 de maio, a partir das 15 horas, na Estação Cidadania, em Santos, reafirmando que a luta não é apenas por lembrança, mas pela penalização rigorosa dos agentes do Estado.
O Massacre de 2006: A gênese do horror
Em maio de 2006, sob o pretexto de retaliação a ataques de uma facção criminosa, agentes estatais promoveram uma onda de violência sem precedentes. Em apenas dez dias, mais de 500 pessoas — em sua vasta maioria jovens negros e moradores de periferia — foram executadas. Vinte anos depois, os “Crimes de Maio” permanecem como uma ferida aberta.
As famílias denunciam uma engrenagem de omissão que se sustenta em três pilares:
- Inquéritos Blindados: A maioria das investigações foi arquivada sem identificar os autores, criando um salvo-conduto para a letalidade policial.
- Justiça Seletiva: A celeridade do Estado em punir a periferia contrasta com a lentidão proposital em julgar seus próprios agentes.
- Reparação Inexistente: Sem condenações, a Justiça é meramente simbólica, e o assassinato acaba institucionalizado como política de segurança.
Do ontem ao hoje: o ciclo da violência nas Operações Escudo e Verão
Para as Mães de Maio, o massacre de 2006 nunca terminou; ele apenas mudou de nome e se institucionalizou. A falta de punição há duas décadas pavimentou o caminho para as recentes tragédias na Baixada Santista.
Dados oficiais recentes reforçam essa continuidade do extermínio. Na Operação Escudo, em julho de 2023, iniciada em Guarujá, resultou em 28 mortes oficiais em 40 dias, tornando-se uma das ações mais letais desde o Carandiru. No final do mesmo ano e em 2024, a Operação Verão veio ainda mais sangrenta, acumulou um saldo de 56 mortos até abril de 2024.
Somadas, essas operações deixaram ao menos 84 vítimas fatais em menos de um ano. O movimento alerta que esses números, já estarrecedores, ocultam denúncias graves de execuções sumárias, tortura e fraude processual — um modus operandi que se repete há 20 anos sob o manto do “combate ao crime”.

Do Luto à Luta: A Exigência de Penalização
Transformadas pela dor em defensoras de direitos humanos, essas mães e familiares trilharam um caminho doloroso para se tornarem agentes de denúncia internacional. Embora tenham conquistado marcos legislativos importantes — como a Lei Estadual nº 15.501/2014 (Semana das Vítimas de Violência) e a Lei Municipal 3.428 de Santos — o movimento enfatiza que leis não bastam se não houver fardas no banco dos réus.
A pauta atual é clara e urgente. É preciso a identificação, indiciamento e responsabilização criminal de cada agente envolvido nas mortes de 2006 e das operações recentes; o fim da justificativa automática de “confronto” sem investigação independente; a punição para oficiais e gestores públicos que planejam e autorizam operações baseadas na letalidade.
As mães seguirão sendo a pedra no sapato, pela sede de justiça que vela pelo descanso das almas dos nossos filhos! Queremos o fim das execuções e o fim do extermínio!
Reparação, memória, justiça e verdade
O julgamento da PEC 26, agendado para o simbólico 13 de maio, coloca o Estado brasileiro diante do espelho de sua própria omissão histórica e da urgência de uma reparação efetiva. Embora vivamos sob um Estado Democrático de Direito, a estrutura social permanece profundamente marcada pela abolição malfadada de 1888, que, longe de garantir liberdade, institucionalizou a exclusão ao privar a população preta e pobre do acesso à moradia, trabalho, saúde, educação e segurança dignas. Esse cenário é o reflexo direto de uma necropolítica que decide quem deve viver e quem pode morrer, perpetuando os malefícios da escravização sob novas roupagens burocráticas e violentas. Reparar esse legado não é apenas uma dívida financeira, mas uma necessidade ética de romper com a negação do direito de ser, de fato, cidadão e cidadã, assegurando que a verdade e a justiça prevaleçam sobre séculos de desumanização sistemática.
Convite à Mobilização
O ato do dia 17 de maio é um chamado à indignação coletiva. É uma oportunidade para a sociedade civil unir-se àqueles que, há duas décadas, transformaram o choro em estratégia de resistência. A luta das Mães de Maio é uma luta pelo direito ao não aniquilamento e pela construção de uma sociedade onde a vida na periferia tenha o mesmo valor que em qualquer outro lugar.
Serviço: Ato Político “20 Anos Sem Resposta”
⦁ Data: 17 de maio (domingo)
⦁ Horário: Concentração a partir das 15h
⦁ Local: Estação Cidadania (Avenida Ana Costa, 340 – Santos/SP)
⦁ Participação: Aberta a movimentos sociais e cidadãos comprometidos com os Direitos Humanos.