Quase todos os barões das big techs globais prestigiaram a posse de Trump: Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple); Jeff Bezos (Amazon), e Elon Musk (X, SpaceX e Tesla). Zuckerberg
“Grande parte das interações humanas no mundo — e no Brasil — ocorre com a mediação dessas plataformas, as chamadas redes sociais, administradas por algoritmos opacos, sem transparência ou auditoria por instituições democráticas. O poder dessas plataformas é tão grande que, ao reduzir a visibilidade de conteúdos de certos grupos políticos, podem desequilibrar completamente a formação de opinião”.
A avaliação acima, feita em artigo publicado no site Brasil de Fato, em abril de 2025, é de Sérgio Amadeu, sociólogo, professor da UFABC e pesquisador do CNPq, com ampla atuação em defesa da democratização da comunicação e da soberania tecnológica.
As eleições presidenciais deste ano no Brasil corroboram a tese do professor, especialmente quando analisada a dinâmica das redes sociais que estão sob o guarda-chuva da empresa Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger, Threads e Meta Horizon).
Big Techs e Donald Trump

Reprodução Youtube/spbancarios
Porém, para falar da interferência das big techs nas eleições brasileiras, sobretudo a Meta, é necessário voltar um pouco no tempo e jogar luz sobre o relacionamento destes grandes conglomerados com Donald Trump, atual presidente dos EUA e um dos fiadores da campanha do candidato à presidência Flávio Bolsonaro.
Em janeiro de 2025, praticamente todos os barões das big techs globais prestigiaram a posse de Trump como presidente dos EUA: Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple); Jeff Bezos (Amazon), e Elon Musk (X, SpaceX e Tesla). Zuckerberg, além de prestigiar o evento, doou US$ 1 milhão para um fundo para o evento de posse de Trump.
Pouco antes da posse de Trump, o CEO da Meta afirmou que a eleição do novo presidente estadunidense era “um ponto de virada cultural para, mais uma vez, dar prioridade à liberdade de expressão” e, no mesmo vídeo, anunciou que o Facebook e Instagram abandonariam o uso de checagem independente de postagens publicadas nas plataformas.
Pressão de Trump contra o Brasil

Reprodução Instagram/spbancarios
Encontro de Donald Trump com Flávio Bolsonaro, senador e hoje candidato à presidência; Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo; e Eduardo Bolsonaro, procurado pela Justiça pelo crime de coação processual (Reprodução/Instagram)
No seu primeiro ano de mandato, Trump mostrou que o relacionamento do seu governo com as big techs estadunidenses não se limitava a aparições públicas e, poderia sim, impactar as relações entre EUA e Brasil.
A pressão das big techs contra a regulação das redes sociais no Brasil influenciou na decisão de Trump de tarifar em mais 50% todos os produtos brasileiros. Em carta enviada ao governo brasileiro, Trump citou supostos “ataques contínuos do Brasil às atividades comerciais digitais de empresas americanas” e suposta “censura” contra plataformas de redes sociais dos Estados Unidos, “ameaçando-as com multas de milhões de dólares e expulsão do mercado de mídia social brasileiro”.
Eleições brasileiras
É neste contexto – de alinhamento ideológico e financeiro entre os barões das big techs globais e o maior líder da extrema-direita mundial – que chegamos ao tema da interferência nas eleições presidenciais brasileiras.
Matéria do jornal Folha de S.Paulo, publicada no dia 16 de outubro, revelou que funcionários da própria Meta – a mesma empresa que doou US$ 1 milhão para a posse de Trump, que por sua vez apoia o candidato Flávio Bolsonaro no pleito presidencial – reconheceram em comunicações internas que contas no Instagram do presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, foram prejudicadas por restrições. Nas mensagens, os funcionários reconheceram ainda que o Instagram recomendava o perfil de Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições, assim como seu canal no WhatsApp.
Um dia antes da publicação da matéria pelo jornal Folha de S.Paulo, a campanha de Lula havia acionado o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) contra a Meta, denunciando que as redes sociais da empresa limitavam o alcance de publicações do candidato à reeleição e dos seus apoiadores, enquanto conteúdos associados à candidatura de Flávio Bolsonaro teriam recebido distribuição ampliada.
Outro ponto levantado pela campanha de Lula no TSE está relacionado com a Meta AI, ferramenta de inteligência artificial do WhatsApp, Instagram e Facebook. Testes realizados indicaram que a ferramenta se recusou a gerar imagens eleitorais de Lula, com o argumento de restrições impostas pela legislação eleitoral. Por outro lado, foi verificado que conteúdos favoráveis a Flávio Bolsonaro foram criados na ferramenta, sem restrições.
A partir da provocação feita pela campanha de Lula, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, determinou, em decisão do dia 18 de outubro, que a Meta comprovasse, em até 24 horas, a adoção de medidas que evitem restrições de publicações político-partidárias e garantam isonomia entre os candidatos.
Por sua vez, na terça-feira (19), a Meta respondeu ao TSE, alegando que cumpriu as determinações para garantir isonomia na distribuição de conteúdos políticos e veiculação de anúncios eleitorais.
Entretanto, a campanha de Lula entrou com nova representação no TSE, na quarta (20), alegando que a Meta segue favorecendo a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Nikolas Ferreira e Pablo Marçal
No último dia 19 de outubro, o ministro Ricardo Villas Boas Cuevas, corregedor-geral do TSE, determinou que o deputado federal Nikolas Ferreira e o influenciador Pablo Marçal – que hoje integra a campanha de Flávio Bolsonaro – estão proibidos de publicar conteúdos que já tiveram a remoção já determinada pela Justiça Eleitoral.
Além disso, o ministro também determinou que a Meta e o X suspendam o impulsionamento de publicações de Nikolas e Marçal até o fim do segundo turno.
Cabe lembrar que Pablo Marçal já foi condenado por promover, nas eleições municipais de 2024, “campeonatos de cortes”, nos quais seus seguidores eram estimulados a produzir e distribuir cortes de vídeos do influenciador e então candidato à Prefeitura da capital paulista nas redes sociais, com premiações em dinheiro de acordo com o desempenho das publicações nas redes sociais.
Além desta condenação, que levou à inelegibilidade de Marçal até 2032, o influenciador acumula outras condenações relacionadas com a campanha de 2024 envolvendo abuso de poder político e econômico, uso indevido de meios de comunicação e oferta de apoio eleitoral a candidatos a vereador mediante doações.