Primeiro pontífice estadunidense refirmou papel da ONU na gestão de crises internacionais
O papa Leão XIV não tem endossado as ações dos EUA e se posiciona em defesa da ONU | Crédito: Vatican Media
O Vaticano anunciou nesta terça-feira (17) que não participará do Conselho de Paz, idealizado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e expressou sua perplexidade com alguns pontos do colegiado, em particular, sua tentativa de substituir as Nações Unidas na condução das crises internacionais.
A posição do papa Leão XVI, o primeiro pontífice estadunidense, foi confirmada pelo secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, às vésperas do primeiro encontro do Conselho da Paz, marcada para quinta-feira (19/02), em Washington.
Ao declarar os motivos da recusa, Parolin disse que o Vaticano está “perplexo” com o formato e as atribuições do colegiado. “O Vaticano não participará do Conselho de Paz para Gaza. Notamos também que a Itália participará como observadora. Evidentemente, há pontos que nos deixam perplexos, questões críticas que precisam ser esclarecidas”, salientou.
“O importante é que estamos tentando dar uma resposta, mas, para nós, existem questões cruciais que precisam ser resolvidas”, afirmou, ao defender que a gestão de crises internacionais deve permanecer sob a coordenação da Organização das Nações Unidas: “uma preocupação é que, no âmbito internacional, seja sobretudo a ONU que administre essas situações de crise. Este é um dos pontos em que temos insistido”.
Inicialmente, o Conselho de Paz teria como função coordenar os esforços de reconstrução da Faixa de Gaza, Trump, no entanto, anunciou, posteriormente, que o colegiado poderia tratar de outros conflitos globais. Parolin também salientou que a Santa Sé não participará da iniciativa “devido à sua natureza particular, que evidentemente não é a de outros Estados”.
Governo italiano
A firme posição do Vaticano se diferencia do governo italiano que confirmou sua participação no Conselho, como observador. O anúncio foi feito pelo vice-premiê e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani.
Ele afirmou que a Itália considerou “apropriado” aceitar o convite e que “a ausência da Itália em uma discussão sobre a paz no Mediterrâneo seria não apenas politicamente incompreensível, mas também contrária ao espírito do Artigo 11 de nossa Constituição, que estabelece a rejeição da guerra como meio de resolução de conflitos”.
Em sua avaliação, a recusa a Trump “significaria negar o papel de liderança” exercido por Roma “no cessar-fogo desde o início da crise, sempre com o objetivo de alcançar dois Estados vivendo juntos em paz e segurança”.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, havia mencionado, anteriormente, que a proposta estadunidense teria “problemas de caráter constitucional” para seu país, referindo-se ao estabelecimento de Trump como presidente vitalício e com poder de veto no organismo. Daí o aceite apenas como observador da entidade.
Tajani ressaltou que o compromisso italiano decorre do diálogo constante com Israel, a Autoridade Palestina e outros atores regionais. Ele também afirmou que o governo Meloni “condenou qualquer sugestão de anexação israelense da Cisjordânia” e criticou os ataques recorrentes de “colonos extremistas”.