Normas editadas em 2022 permitiram a entrada do cartão Credcesta no universo de aposentados e pensionistas; acordo com o banco acabou vetado em 2025.
O INSS alterou regras do crédito consignado em 2022, no governo Jair Bolsonaro, e abriu caminho para a operação do cartão consignado de benefício que impulsionou o Credcesta, produto ligado ao banco Master. A mudança abriu a modalidade para aposentados, pensionistas e beneficiários do BPC e passou a ser vista como um dos marcos da expansão do grupo no mercado previdenciário.
Documentos do acordo de cooperação técnica firmado entre o INSS e o Master, revelados em reportagem da Folha de S. Paulo no domingo (5/4), mostram que uma das mudanças foi implementada 16 dias após um ofício do banco pedir a inclusão do cartão consignado de benefício no escopo da operação junto à autarquia.
A base normativa da mudança está em atos oficiais. A Instrução Normativa PRES/INSS nº 131, de 25 de março de 2022, alterou a regra anterior sobre consignado. Na sequência, a Resolução CNPS nº 1.348, de 12 de abril de 2022 detalhou o chamado cartão consignado de benefício, com previsão de serviços agregados e exigência de acordo específico com o INSS.
O que mudou nas regras do consignado
Na prática, o novo desenho regulatório abriu o caminho para que o Credcesta chegasse ao público do regime geral da Previdência. Em 7 de junho de 2022, o Master pediu aditamento do acordo de cooperação com o INSS para incluir o novo cartão. Em 23 de junho, nova instrução normativa publicada no Diário Oficial detalhou a operação. Em 13 de julho, o termo aditivo foi assinado.
O produto já era usado com servidores estaduais e municipais, mas ganhou nova escala ao entrar no universo de beneficiários do INSS. A regulamentação permitiu usar a margem reservada para esse tipo de cartão e autorizou a oferta de itens como desconto em farmácia e auxílio-funeral, modelo que se tornaria central na expansão do banco até sua derrocada.
A atual gestão do INSS passou a tratar a operação como irregular. Em outubro de 2025, a autarquia informou oficialmente que decidiu não renovar o Acordo de Cooperação Técnica com o Banco Master e retirou os acessos da instituição aos ambientes operacionais do consignado.
Fórum já vinha mostrando rede política e empresarial
A nova revelação se soma a uma cobertura mais ampla da Fórum sobre a CPMI do INSS, o avanço das apurações sobre o Master e a rede política que cercou a operação do banco. Em fevereiro, a reportagem mostrou que um ex-ministro de Bolsonaro ligado ao Republicanos ganhou cargo em banco herdeiro do consignado do Master, reforçando a conexão entre o grupo financeiro e quadros políticos da direita.
A cobertura também apontou que o caso não se limita ao mercado de crédito. Em outra frente, a Fórum detalhou a trama que une o Master, Roberto Campos Neto, a Faria Lima e o braço político do grupo. Mais recentemente, a revista mostrou como o nome de André Valadão passou a aparecer na interseção entre os casos Master e INSS, em meio ao avanço de investigações e à pressão sobre personagens ligados ao banco.
Esse histórico dá contexto político ao novo dado sobre o INSS. As mudanças de 2022 não aparecem como episódio isolado, mas como parte de um ambiente institucional que favoreceu a expansão de um produto depois questionado pela própria autarquia. O elo entre norma, acordo operacional e crescimento acelerado do Credcesta reforça a relevância do caso no conjunto da cobertura sobre o Master.
Do governo Bolsonaro à liquidação do banco
A sequência dos atos oficiais mostra que a abertura regulatória ocorreu no último ano do governo Bolsonaro. O Master usou esse novo ambiente para ampliar sua presença entre aposentados e pensionistas. Anos depois, já sob outra gestão, o INSS passou a apontar desconformidades, bloqueou a atuação do banco no consignado e indicou risco de prejuízo a beneficiários.
O caso ganhou dimensão ainda maior após a liquidação extrajudicial do banco e o avanço de apurações sobre carteiras de crédito, relações políticas e estruturas empresariais ligadas ao grupo. Nesse cenário, a mudança normativa de 2022 se consolidou como peça central para entender como o Credcesta entrou no INSS e por que o tema se tornou mais um capítulo sensível da crise do banco Master.