Famílias dizem conviver há meses com interrupções recorrentes no fornecimento e imprevisibilidade no retorno da água, na grande São Paulo e na Baixada Santista. Mas aumento da taxa é implacável!
Quando o relógio marca oito horas da noite na Vila Maria Alta, na região norte da capital paulista, Regiane Gomes de Souza corre contra o tempo para resolver as demandas mais básicas da casa.
Trabalhadora do setor de vendas, ela viu sua rotina ser ditada pelo fluxo incerto das torneiras. “Bom, o racionamento aqui na minha residência está acontecendo há bastante tempo já, mas o último mês de dezembro foi o que eu mais senti porque faltava na pia e, em determinado tempo, também faltava na caixa. Então a caixa da água esgotava e aí faltava na caixa e na pia”, relata.
A precariedade transformou o ato de escovar os dentes ou tomar um banho após o trabalho em um desafio logístico. “Ficavam dois ambientes sem água: na torneira da pia da cozinha e no banheiro. Ficamos sem água para poder escovar os dentes. No período noturno, você quer tomar um banho para descansar e não tem água, é aquele momento ali, não tem como a gente fazer isso antes”, lamenta.
A estratégia de Regiane para sobreviver ao que ela descreve como um corte sistemático entre 20h e 21h é o improviso. “Nesse momento eu comecei a guardar água em jarras para poder pelo menos, ter água para poder escovar os dentes e colocar água no baldinho para poder jogar na descarga”, relata.
A falta d’água foi mais acentuada no comecinho de dezembro para ela que mora com mais três pessoas, entre elas uma criança. “Eu não sei falar precisamente o dia, mas assim, sempre faltava: faltava hoje, mas aí, no outro dia voltava, ficava assim, faltavam dois dias, depois voltava a faltar de novo”, diz ela, ressaltando a necessidade de adaptação forçada da família.
“Temos que adaptar a rotina por conta da falta d’água. Fazer uma janta mais cedo, lavar a louça, porque senão mais tarde não tem água. Precisamos colocar mais água na geladeira, porque num certo momento já não tem água mais no nosso filtro. Não tem água na torneira, então, se a pessoa ficar desprevenida, fica sem água para fazer qualquer coisa”, reclama. Segundo Regiane o contato com a empresa é falho. “Geralmente nunca resolve, perco tempo.”
A realidade de Regiane não é um caso isolado, mas parte de uma engrenagem técnica e política. Segundo Amauri Pollachi, especialista em recursos hídricos e conselheiro do Ondas (Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento), o que ocorre é uma gestão deliberada da escassez promovida pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). A Baixada Santista, também, está muito impactada com a falta de água.
“O que a Sabesp está fazendo é uma gestão da oferta, reduzindo a oferta de água para a população. Atualmente, há uma prática de se reduzir essa oferta de água durante 10 horas a cada dia. Isso está afetando fundamentalmente a população que reside em locais mais altos da região metropolitana de São Paulo e mais distantes dos reservatórios”, explica o especialista.
Pollachi aponta que, mesmo quando o fornecimento é “restabelecido”, a pressão é insuficiente. “Mesmo após as 10 horas de restrição de oferta de água por parte da Sabesp, muita gente está recebendo o chamado fiozinho de água. Ou seja, aquela água insuficiente para o seu consumo, que sequer chega em uma torneira junto do medidor de água.”
Injustiça social: maior poder aquisitivo é poupado dos cortes
Pollachi é enfático ao denunciar a falta de democratização no acesso ao recurso. “O que está acontecendo é uma seletividade no fornecimento de água. Para a empresa, interessa fornecer água de forma contínua para aqueles consumidores que têm maior poder aquisitivo e que consomem mais água, situados em áreas de maior poder aquisitivo”, afirma o especialista. Na Baixada Santista, os bairros periféricos de várias cidades são os mais atingidos, conforme relatos no noticiário diário.
“Essa seletividade está muito clara porque, a partir do momento que você tem o grande consumidor e aqueles consumidores de maior poder aquisitivo com o fornecimento garantido, você não reduz a arrecadação e isso é importante para a empresa, porque o viés que ela possui após a privatização é o de maximizar lucro. As prefeituras têm sido omissas nesse processo”, critica o conselheiro do Ondas.
Menos água, com aumento na conta
Segundo a professora, Maria Cristina, o paradoxo da crise está no custo. Inclusive, durante os períodos críticos de falta de água, as contas subiram demasiadamente. “Então, além de ficarmos sem água, sem estratégia e sem organização, ainda por cima o valor da conta subiu bastante. Principalmente com criança pequena, a gente precisa muito de água”, desabafa.
Com a escassez da chuva, a perspectiva que o governo do estado deu é de aumentar esse período sem água: ao invés de 10 horas, passar para 14 ou 16 horas por dia. Aí é o caos, as pessoas não vão receber água, diz Pollachi.
Para Regiane, o “caos” já faz parte do planejamento doméstico. “Eu sou uma pessoa que já utilizava a água da máquina para poder lavar o quintal, então, nesse exato momento, com esses cortes de água, eu estou aproveitando, porque também coloco nos baldes para poder dar descarga.”
Com a falta de água da rua, automaticamente a família usa toda a água da caixa, com isso eles ficam sem água no banheiro e na cozinha, por exemplo.
Redução da pressão a partir de agosto
Procurada pela reportagem, a Sabesp informa que, diante do cenário de estiagem, altas temperaturas e do baixo nível dos mananciais, a companhia “está adotando desde 27 de agosto a redução da pressão da água no período noturno, quando há menor consumo pela população. Essa medida está sendo aplicada das 19h às 5h, em toda a Região Metropolitana de São Paulo”.
Segundo a empresa, a ação é preventiva e temporária e atende a uma deliberação da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo), com o objetivo de preservar os reservatórios que abastecem a região.
A Sabesp ressalta que imóveis que possuem suas instalações conectadas à caixa-d’água devem sentir menos os efeitos da redução de pressão e lembra ainda a importância do uso consciente da água por toda a população. Casas que ficam nas áreas mais altas das cidades tendem a sentir mais a redução de pressão.