Segundo dia de negociação da Campanha Nacional 2026 debateu propostas relacionadas à saúde física e mental, prevenção de acidentes, riscos ocupacionais e combate ao assédio
Os financiários deram continuidade, nesta quinta-feira (24), em São Paulo, à rodada de negociação da Campanha Nacional 2026 com a Federação Interestadual das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi). No segundo dia de negociações, o movimento sindical apresentou, explicou e debateu propostas voltadas à saúde, segurança e proteção dos trabalhadores.
As reivindicações abrangem desde a manutenção da remuneração durante afastamentos por doença ou acidente até medidas de prevenção de acidentes, participação dos trabalhadores no gerenciamento de riscos ocupacionais, proteção da saúde mental, combate ao assédio e regras para o uso de tecnologias e sistemas automatizados no ambiente de trabalho.
Após a apresentação e o debate das propostas, o movimento sindical aguarda o retorno da Fenacrefi sobre os pontos apresentados para que as negociações possam avançar.
Para Talita Régia, secretária do Ramo Financeiro da Contraf, saúde e segurança precisam estar no centro da discussão sobre as condições de trabalho. “Saúde e segurança no trabalho são temas que precisam estar no centro das relações de trabalho, especialmente diante dos impactos que as novas formas de organização e gestão vêm provocando na categoria. Estamos apresentando propostas que buscam garantir proteção não apenas diante de acidentes e doenças, mas também diante dos riscos psicossociais, do assédio e do uso cada vez maior de tecnologias e sistemas de monitoramento. Esperamos que a Fenacrefi compreenda a importância dessas reivindicações e esteja aberta a construir avanços que garantam condições de trabalho mais seguras e saudáveis para os financiários”, afirma.
Manutenção dos salários durante afastamentos
Entre as propostas discutidas está a garantia de complementação salarial aos trabalhadores afastados. A reivindicação prevê que o empregado receba da empresa a diferença entre o valor pago pelo INSS e a remuneração total que receberia se estivesse na ativa.
A proposta inclui salários, comissões, gratificações, adicionais e PLR. Também prevê a manutenção de benefícios como auxílio-refeição, auxílio-cesta alimentação, 13ª cesta alimentação, auxílio-farmácia, vale-transporte e vale-cultura, além do recolhimento do FGTS, durante afastamentos decorrentes de acidente ou doença e licença-maternidade.
A proposta também contempla situações em que o benefício previdenciário seja indeferido ou cessado e casos em que o trabalhador ainda não tenha cumprido o período de carência para ter direito ao benefício por incapacidade temporária.
Prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho
Outro conjunto de propostas trata da prevenção e do reconhecimento dos acidentes e doenças relacionados ao trabalho. A reivindicação estabelece que sejam reconhecidos como acidentes de trabalho os eventos ocorridos no exercício da atividade profissional que provoquem lesão corporal ou perturbação funcional, além das enfermidades constantes na lista de doenças relacionadas ao trabalho.
Também é proposta a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) até o primeiro dia útil seguinte à constatação ou suspeita de acidente ou doença ocupacional.
A pauta prevê ainda acesso dos sindicatos e das CIPAs a informações e dados estatísticos sobre acidentes e doenças ocupacionais, além da participação dos representantes dos trabalhadores nas políticas de saúde e segurança.
Entre as propostas está também a possibilidade de os sindicatos realizarem vistorias nos locais de trabalho para verificar o cumprimento das normas de saúde e segurança.
Canal de acolhimento aos trabalhadores
A pauta propõe a criação de um canal de acolhimento humanizado para os trabalhadores, com atendimento por telefone, WhatsApp e, quando necessário, presencialmente.
O objetivo é orientar os empregados sobre procedimentos relacionados a afastamentos, entrega de atestados, perícias, descontos, exames de retorno ao trabalho e processos de readaptação, entre outros temas.
Também é reivindicada a criação de uma cartilha com orientações detalhadas sobre cada etapa do afastamento, com informações de fácil acesso sobre os procedimentos junto à empresa e ao INSS.
Acidentes de trajeto e gerenciamento de riscos
Outro ponto debatido foi o reconhecimento dos acidentes ocorridos no deslocamento entre a residência e o local de trabalho, ou no retorno para casa, como acidentes de trabalho, conforme os critérios previstos na legislação.
A pauta também propõe a participação efetiva dos trabalhadores e de suas entidades representativas em todas as etapas do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), incluindo a elaboração, implementação, acompanhamento e revisão do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
A proposta prevê ainda a criação de comitês permanentes de gestão de riscos ocupacionais, com participação de representantes dos sindicatos, da CIPA e do SESMT.
Combate ao assédio e à violência no trabalho
O combate ao assédio moral, assédio sexual e outras formas de violência no ambiente de trabalho também esteve entre os temas apresentados na rodada. As propostas preveem a continuidade de campanhas de prevenção e combate ao assédio sexual, com participação dos sindicatos e CIPAAs. Entre as medidas estão a realização de palestras, debates, oficinas com especialistas e ações durante as SIPATs, além da disponibilização de espaços para divulgação de informações sindicais nos locais de trabalho.
A pauta também propõe treinamentos regulares e com certificação obrigatória para gestores, abordando prevenção ao assédio, gestão de pessoas e respeito à diversidade. Para as CIPAAs, é reivindicada capacitação para identificação de riscos psicossociais e sinais de assédio.
Outro ponto é a criação e o fortalecimento de canais de denúncia, com garantia de sigilo e preservação das pessoas envolvidas durante a apuração.
O movimento sindical propõe que as denúncias sejam analisadas por uma comissão bipartite, formada por representantes dos trabalhadores e das empresas, garantindo investigação imediata, imparcial e confidencial. A pauta também prevê a definição de prazo para apuração e o acesso das entidades sindicais às denúncias realizadas e ao andamento dos processos.
Proteção contra retaliações
Entre as reivindicações apresentadas está ainda a garantia de não retaliação aos trabalhadores que denunciarem situações de assédio. A proposta estabelece que o trabalhador não possa sofrer consequências funcionais em razão da denúncia, incluindo mudanças prejudiciais de condições de trabalho, restrições de promoção ou tratamento diferenciado. Também prevê que o teletrabalho ou qualquer outro benefício não seja utilizado como instrumento de pressão, punição ou retaliação.
A pauta propõe ainda estabilidade para a pessoa assediada durante o período de investigação e, caso o assédio seja confirmado, a extensão dessa proteção por dois anos.
Nos casos de assédio sexual ou moral em que a vítima opte pela transferência, a proposta prevê que a decisão seja da própria pessoa assediada, cabendo à empresa providenciar a mudança de lotação.
Transparência na apuração das denúncias
A categoria também reivindica maior transparência na gestão dos casos de assédio. A proposta estabelece que as empresas informem aos sindicatos o número e os tipos de denúncias recebidas, além das soluções adotadas nos casos apurados, preservando a identidade das pessoas envolvidas.
Também é proposta a revisão das estruturas responsáveis pela apuração, com medidas que garantam independência nos processos investigativos, inclusive evitando que gestores envolvidos em situações denunciadas tenham participação na apuração.
Em caso de confirmação do assédio, a pauta prevê a adoção de medidas disciplinares proporcionais à gravidade dos fatos. Também são reivindicadas assistência psicológica e jurídica à vítima e, quando houver relação com o adoecimento, medidas de proteção à saúde e ressarcimento de despesas médicas e medicamentosas, conforme os critérios propostos.
Prevenção ao assédio moral organizacional
Além do combate aos casos individuais, a pauta trata do chamado assédio moral organizacional, relacionado a práticas de gestão e organização do trabalho que possam expor trabalhadores, de forma reiterada, a constrangimento, pressão excessiva ou desgaste que afete sua dignidade ou saúde.
Entre os exemplos apontados na proposta estão metas incompatíveis com as condições reais de trabalho, cobrança excessiva ou exposição vexatória de resultados, ameaças de descomissionamento ou dispensa como forma de pressão, monitoramento abusivo de desempenho e práticas que estimulem competição prejudicial entre trabalhadores.
A reivindicação prevê medidas preventivas, como orientação dos gestores sobre práticas adequadas de gestão de pessoas, canais confidenciais para relatos e apuração das ocorrências.
A proposta também estabelece que as empresas se adequem à Convenção 190 e à Recomendação 206 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com elaboração conjunta com os sindicatos de protocolos de prevenção.
Proteção da privacidade e saúde mental
As reivindicações também avançam sobre a proteção dos dados e da privacidade dos trabalhadores em programas relacionados à saúde mental e aos fatores psicossociais.
A proposta estabelece que sejam coletadas apenas informações estritamente necessárias para identificar e prevenir riscos ocupacionais. Também prevê restrições à coleta de informações sobre a vida privada dos empregados e garante que a participação em entrevistas, testes, questionários e avaliações psicossociais seja facultativa.
A recusa do trabalhador em participar dessas iniciativas não poderá resultar em consequências funcionais, como avaliação negativa, restrição de promoção ou tratamento diferenciado.
Combate ao assédio algorítmico e à vigilância excessiva
Outro tema apresentado na negociação foi o impacto dos sistemas digitais e automatizados sobre as relações de trabalho. A pauta propõe o reconhecimento do chamado assédio algorítmico, caracterizado por formas de gestão mediadas por sistemas digitais ou automatizados que imponham metas ou ritmos incompatíveis com as condições reais de trabalho, promovam monitoramento excessivo ou provoquem pressão psicológica e impactos à saúde.
Também são propostas restrições ao monitoramento contínuo, à coleta de dados que não estejam diretamente relacionados à atividade profissional e à utilização de sistemas que promovam rankings ou comparações individuais.
A categoria reivindica ainda transparência sobre os sistemas algorítmicos utilizados pelas empresas, com acesso às informações sobre critérios, métricas e pesos empregados na avaliação de desempenho.
Outro ponto é a garantia de revisão humana para decisões que afetem remuneração, avaliação de desempenho ou manutenção do emprego, além do direito de contestação com acompanhamento sindical.
Controle do ponto e uso de dados
A proposta estabelece que o sistema eletrônico de registro de ponto tenha finalidade exclusiva de controle da jornada de trabalho. A reivindicação prevê que os dados do ponto não sejam utilizados para monitoramento, vigilância, avaliação de desempenho ou gestão de produtividade, nem cruzados com informações como pausas, velocidade de atendimento, localização, uso de teclado, mouse, aplicativos, microfone ou câmeras. A pauta também estabelece limites para o uso de geolocalização e outras ferramentas de rastreamento no trabalho remoto.
Próximos passos
Com a apresentação, explicação e debate das propostas, o movimento sindical agora aguarda o retorno da Fenacrefi sobre os pontos discutidos. A próxima rodada de negociação será realizada na segunda-feira (28), em São Paulo.