Estados Unidos avaliam tarifas de até 37,5% sobre exportações do Brasil, afetando mais de 35% da pauta comercial. Setores como metalurgia, calçados e máquinas correm risco, enquanto café em grãos e aeronaves ficam de fora
A quarta-feira (15/7) será decisiva para os rumos da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. É quando termina o prazo para que a Representação de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) conclua a investigação aberta com base na Seção 301 da legislação comercial americana e anuncie a decisão sobre a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre parte das exportações brasileiras. Se somada a uma segunda investigação, relacionada ao combate ao trabalho forçado, a carga tarifária poderá chegar a 37,5% para alguns produtos.
Além de definir a manutenção das tarifas, o governo americano deverá anunciar quais produtos serão incluídos na lista de exceções. Embora a expectativa predominante entre especialistas seja de que a sobretaxa seja mantida, cresce a avaliação de que novos setores poderão ser poupados da medida após as audiências públicas realizadas na semana passada em Washington.
A decisão é acompanhada de perto por empresas e governos dos dois países, diante do potencial de elevar custos, reduzir a competitividade das exportações brasileiras e afetar cadeias produtivas integradas. Na avaliação do economista e professor do Insper Otto Nogami, os impactos para o Brasil tendem a ser concentrados em segmentos específicos, sem provocar efeitos expressivos sobre o crescimento da economia como um todo.
“O efeito mais imediato seria a perda de competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano. Uma tarifa de 25% encarece artificialmente nossas exportações diante de concorrentes de outros países e pode reduzir encomendas, pressionar margens das empresas e afetar investimentos e empregos em setores mais dependentes dos Estados Unidos”, afirma.
Segundo ele, o impacto agregado sobre o Produto Interno Bruto (PIB) deve ser limitado porque os Estados Unidos representam apenas parte das exportações brasileiras, e diversos produtos permanecem protegidos pelas exceções já existentes. Ainda assim, algumas cadeias produtivas poderão sentir efeitos relevantes. “Os impactos serão muito mais significativos para determinados setores, empresas e regiões do que para a economia brasileira como um todo”, observa.
A avaliação é de que a política tarifária também impõe custos à própria economia americana. Como a tarifa é recolhida pelo importador, parte desse aumento tende a ser repassada ao longo da cadeia produtiva. “Não é uma medida em que apenas o exportador brasileiro perde. Importadores americanos terão custos maiores, precisarão buscar fornecedores alternativos ou absorver parte desse aumento. Empresas e consumidores dos Estados Unidos também podem ser prejudicados”, destaca Nogami.
Ele explica que a intensidade desse impacto dependerá da facilidade de substituir produtos brasileiros por fornecedores de outros países. Quando não há alternativas competitivas, o repasse tende a ser maior.
Inflação dos EUA
Apesar das preocupações levantadas por empresas durante as audiências públicas, os economistas descartam que as tarifas sobre produtos brasileiros, isoladamente, provoquem pressão significativa sobre a inflação dos Estados Unidos.
Para Lia Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre) e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o peso do Brasil na pauta importadora americana é relativamente pequeno. “O Brasil representa uma parcela muito pequena das importações americanas. Então, sozinho, não será responsável por aumentar a inflação dos Estados Unidos”, afirma.
Ela ressalta, porém, que alguns nichos específicos podem registrar aumento de preços, sobretudo onde o Brasil ocupa posição estratégica como fornecedor. “No café, por exemplo, pode haver impacto porque o Brasil tem participação importante na oferta do café verde utilizado pela indústria americana. Também há efeitos pontuais em siderurgia e alguns produtos específicos, mas isso é diferente de provocar inflação generalizada”, explica.
Nogami acrescenta que o efeito inflacionário das tarifas depende do conjunto de medidas adotadas por Washington. “Somadas a outras tarifas já anunciadas pelo governo americano, elas podem ampliar pressões sobre alimentos, matérias-primas e bens industriais. Além disso, a redução da concorrência externa pode permitir reajustes também aos produtores domésticos.”
Exceções
Uma das principais características da investigação é que boa parte da pauta exportadora brasileira permanece protegida pelas listas de exceção já definidas pelo governo americano. Segundo Lia Valls, aproximadamente metade dos produtos brasileiros já ficou de fora das novas tarifas por estarem abrangidos por exceções anteriores ou por integrarem outros regimes tarifários.
Com isso, os maiores impactos tendem a se concentrar justamente nos segmentos que permaneceram fora dessas listas. Entre eles estão máquinas e equipamentos, plásticos, calçados, madeira, café solúvel e pescado. “Os setores mais afetados são exatamente aqueles que não estão contemplados pelas exceções”, resume.
Mesmo antes de uma decisão definitiva sobre a nova rodada tarifária, já é possível observar uma redução gradual da presença brasileira no mercado americano. Segundo Lia Valls, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras vem caindo ao longo dos últimos anos. “As exportações brasileiras para os Estados Unidos já representaram cerca de 12% da pauta, e hoje estão em torno de 9,4%. O principal problema dessas medidas é a incerteza que elas criam para empresas e investidores”, destaca.
Para ela, esse ambiente de imprevisibilidade acaba influenciando decisões de investimento e leva empresas a buscar novos mercados. “O exportador não sabe se haverá novas tarifas ou novas mudanças. Essa incerteza acaba sendo tão prejudicial quanto a própria tarifa.”