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Como a inteligência artificial amplia a desigualdade digital

Charge Educacine

25 de março de 2026

Muito provavelmente, a inteligência artificial já deve ter entrado na sua rotina. Nos tempos contemporâneos, ela está em nosso trabalho, no celular, no banco, no streaming. Parece só mais uma ferramenta que nos auxilia no cotidiano, mas, quando olhamos com atenção, podemos perceber outra coisa: a tecnologia não opera fora da sociedade, ela carrega suas desigualdades e mazelas.

A ideia de que a inovação é neutra não se sustenta. Em um país marcado por desigualdade social, a inteligência artificial tende a aprofundar diferenças. E isso já está acontecendo.

Neste artigo, você vai entender como a desigualdade digital se conecta à inteligência artificial, como ela reorganiza o poder econômico e político e por que esse processo coloca o Brasil em uma posição de dependência.

Como a Inteligência Artificial funciona na prática?

A inteligência artificial não é mágica. Ela funciona com base em dados e algoritmos. Os algoritmos são sequências de instruções e padrões que processam informações e produzem resultados.

No caso da IA, esses sistemas aprendem com grandes volumes de dados que identificam padrões do passado para fazer previsões ou tomar decisões. Isso vale para tudo: recomendação de conteúdo, concessão de crédito, seleção de candidatos, decisões judiciais.

O problema começa aqui. Se os dados refletem uma sociedade desigual, a tecnologia aprende essa desigualdade.

Desta forma, os algoritmos não criam preconceitos do zero, mas eles reproduzem padrões pré-existentes nos dados. Na prática, isso significa que as desigualdades sociais passam a ser automatizadas.

Desigualdade digital: quem acessa e quem fica de fora

A desigualdade digital não começa na inteligência artificial. Ela aparece antes, no acesso à tecnologia.

Segundo um estudo divulgado no final do ano de 2025 pelo Comitê Gestor da Internet (CGI.br), no Brasil, cerca de 50 milhões de pessoas usavam IA generativa, um número que representa 32% dos usuários de internet. Mas esse acesso não é distribuído de forma igual. A diferença entre classes sociais é evidente: enquanto 69% das pessoas da classe A utilizavam Inteligência Artificial, apenas 16% das classes D e E tinham acesso às IAs.

Os dados também refletem no campo escolaridade. Entre aqueles com ensino superior, 59% utilizavam IA, versus 17% entre quem tem apenas o ensino fundamental completo, mostrando que a desigualdade digital nunca foi só sobre conexão, mas sobre as condições que possibilitam — ou não — o acesso à tecnologia.

Ainda segundo o estudo, o acesso à internet é instável para grande parte da população. Milhões de brasileiros têm pacotes de dados limitados, o que restringe o uso contínuo de ferramentas digitais. O resultado é claro: os benefícios da inteligência artificial ficam concentrados nos mesmos grupos que já tinham mais recursos.

A Inteligência Artificial não é neutra

Existe uma narrativa forte no mercado em que a tecnologia seria objetiva, baseada em matemática, livre de julgamento humano. Mas isso não corresponde à realidade. Antes de tudo, os algoritmos são construídos por pessoas, treinados com dados produzidos por uma sociedade desigual e orientados por interesses econômicos, que refletem escolhas

Desta forma, sistemas de IA tendem a reproduzir preconceitos raciais, sociais e de gênero. Isso acontece porque os dados utilizados carregam essas distorções.

Em testes com geração de imagens, por exemplo, as representações padrão associam sucesso, beleza e trabalho qualificado a pessoas brancas. Um padrão que não surge por acaso, que vive nos dados.

No campo da justiça, a preocupação é ainda maior. Algoritmos podem influenciar decisões judiciais, classificações de risco e definição de penas. Quando esses sistemas operam com viés, a desigualdade deixa de ser um erro e vira regra automatizada.

Como o viés algorítmico reproduz as desigualdades?

O viés algorítmico é o ponto onde tecnologia e desigualdade social se encontram de forma mais visível. Quando um sistema aprende com dados históricos, ele aprende também os padrões de exclusão. Isso aparece em várias áreas.

Mercado de trabalho
Algoritmos de recrutamento podem priorizar perfis que historicamente tiveram mais acesso a oportunidades. Isso reforça desigualdades de gênero e raça.

Crédito e serviços financeiros
Sistemas de análise de risco podem negar crédito para determinados grupos com base em padrões históricos, mesmo sem considerar a influência da desigualdade social sobre essas bases..

Segurança pública
Ferramentas de reconhecimento facial e policiamento preditivo tendem a concentrar vigilância em populações já mais expostas à ação do Estado.

Esses sistemas criam ciclos de repetição. A tecnologia lê o passado e transforma esse passado em previsão.

Big Techs e concentração de poder

A desigualdade digital não é apenas social. Ela também é geopolítica. A infraestrutura da inteligência artificial está concentrada em poucas empresas e países. Estados Unidos e China dominam a produção tecnológica, as patentes e os investimentos.

Dados de 2025 mostraram que 60% das patentes de IA estão nesses países e 40% das pesquisas são financiadas por apenas 100 empresas. Isso significa que o desenvolvimento tecnológico global está nas mãos de poucos agentes.

Essas empresas controlam a infraestrutura de dados, as plataformas digitais, os modelos de inteligência artificial e os fluxos de informação. Na prática, isso define quais tecnologias serão desenvolvidas, para quem e com qual objetivo.

Colonialismo de dados e dependência tecnológica

Esse cenário tem um nome: colonialismo de dados. A lógica é parecida com o colonialismo histórico. Países periféricos fornecem matéria-prima. Nesse caso, a matéria-prima são os dados, que são coletados pelas plataformas digitais, processados em centros tecnológicos no Norte Global e transformados em produtos e serviços vendidos de volta para os mesmos países que os forneceram.

O Brasil entra nesse sistema como fornecedor de dados e consumidor de tecnologia. Isso gera uma nova divisão internacional do trabalho em que países centrais desenvolvem tecnologia e países periféricos fornecem a matéria-prima e a mão de obra.

Inteligência artificial e controle social

A inteligência artificial também reorganiza formas de controle. Os sistemas automatizados são usados para classificar comportamentos, prever ações e tomar decisões que afetam sua vida, incluindo situações como seleção de candidatos, concessão de benefícios, monitoramento de atividades online e até mesmo a vigilância urbana.

Esse processo é chamado de controle social digital. Diferente de formas tradicionais de controle, ele é silencioso. Você não vê a decisão sendo tomada, mas sente seus efeitos. O risco é que essas decisões sejam baseadas em dados enviesados e operem sem transparência.

Os impactos da IA no mercado de trabalho

A inteligência artificial também está mudando o trabalho. Segundo alerta da ONU, divulgado em 2025, até 40% dos empregos podiam ser impactados pela IA. Isso não significa apenas substituição de funções, mas uma reorganização da economia.

A automação tende a aumentar produtividade e reduzir necessidade de mão de obra em certas áreas, além de concentrar renda em setores que controlam tecnologia. Historicamente, ganhos de produtividade poderiam ser distribuídos. Mas, na lógica atual, esses ganhos tendem a se concentrar.

Enquanto isso, trabalhadores enfrentam a precarização, intensificação do trabalho e perda de estabilidade. A tecnologia não determina esse resultado sozinha. Ele depende do modelo econômico.

A desigualdade digital tende a aumentar?

Sem políticas inclusivas, a inteligência artificial pode ampliar desigualdades econômicas e sociais. Uma combinação de fatores explica por que a desigualdade digital tende a crescer:

Acesso desigual: nem todos conseguem usar a tecnologia da mesma forma
Dados enviesados: sistemas aprendem e reproduzem padrões de desigualdade
Concentração de poder: quando poucas empresas controlam a infraestrutura
Falta de regulação: o desenvolvimento tecnológico avança mais rápido que as políticas públicas.
O desafio da soberania tecnológica

Diante desse cenário, surge uma questão central: quem controla a tecnologia? Sem investimento em ciência, infraestrutura e desenvolvimento próprio, o Brasil tende a ocupar uma posição subordinada.

Soberania tecnológica não é apenas produzir tecnologia. É controlar dados, definir regras, estabelecer prioridades e garantir que a tecnologia sirva à sociedade. Sem isso, o país permanece dependente de plataformas externas.

Tecnologia para quem?

A inteligência artificial pode gerar avanços, mas essa não é a discussão. É sabido que ela pode melhorar serviços, otimizar processos e ampliar acesso à informação. Mas isso não acontece automaticamente. A tecnologia segue interesses que estão ligados à lógica de mercado, concentração de poder e exploração de dados.

A questão não é se a inteligência artificial vai transformar a sociedade, isso é um fato. O ponto é entender se ela será usada para ampliar ou reduzir a desigualdade.

Porque, no fim, a tecnologia não decide sozinha. Quem decide são as estruturas de poder que a controlam.

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Fonte: ICL Notícias Publicado por: Jhuly Esteves

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