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Brasil avança em 71% dos indicadores; mas 1% mais rico ganha 31,5 vezes mais

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

14 de agosto de 2026

O Brasil avançou na maior parte dos indicadores sociais em 2025, impulsionado pela melhora do mercado de trabalho, pelo crescimento da renda e pela redução da pobreza, mas ainda enfrenta obstáculos para transformar esses ganhos em uma distribuição mais igualitária da riqueza.

É o que mostra o Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026, divulgado quarta-feira (12).

Dos indicadores que puderam ser atualizados, 71% apresentaram melhora em relação ao período anterior, 16% pioraram e 13% permaneceram praticamente estáveis.

O principal sinal de alerta aparece justamente na distribuição dos ganhos econômicos. Em 2025, o rendimento médio do 1% mais rico foi 31,5 vezes superior ao dos 50% mais pobres, contra 30,2 vezes em 2024. 

Segundo o estudo, o crescimento econômico e a melhora do mercado de trabalho elevaram a renda da população em geral, mas os ganhos foram apropriados de forma mais intensa pelos estratos de maior rendimento.

Elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no âmbito do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, com apoio do Ministério das Mulheres, o levantamento acompanha indicadores de renda, trabalho, segurança alimentar, educação, saúde, meio ambiente, moradia, segurança pública e representação política.

Desemprego cai e renda cresce

A melhora do mercado de trabalho aparece entre os principais avanços registrados desde 2022. A taxa de desocupação brasileira caiu de 9,6% para 5,6% entre 2022 e 2025. Entre as mulheres negras, grupo historicamente mais atingido pelo desemprego, a queda foi ainda maior: de 14% para 8,5%.

O rendimento médio real de todas as fontes também avançou. Em 2025, chegou a R$3.376, alta de 5,3% em relação ao ano anterior. 

O relatório relaciona a melhora observada nos últimos anos à retomada do crescimento econômico, à valorização do salário mínimo, à expansão do emprego formal e ao fortalecimento das políticas públicas.

Os efeitos aparecem também nos indicadores de pobreza. Segundo o estudo, a melhora do mercado de trabalho, a valorização do salário mínimo e a ampliação das políticas de proteção social reduziram a parcela da população vivendo em domicílios com renda per capita de até um quarto e até meio salário mínimo.

Outros indicadores seguiram a mesma direção. A frequência de crianças de zero a três anos em creches aumentou de 30,7% em 2022 para 36,6% em 2025. Entre as crianças negras, passou de 28,5% para 34,5%. Já a escolarização líquida no ensino médio entre jovens negros do sexo masculino avançou de 64,3% para 72%.

O relatório registra ainda avanços na segurança alimentar, na redução da desnutrição infantil e entre idosos, na queda do analfabetismo, na escolarização nos ensinos médio e superior e na redução dos homicídios registrados de jovens de 15 a 29 anos.

Crescimento não chega da mesma forma a todos

Apesar da melhora generalizada, o relatório mostra que o avanço das médias nacionais não significou redução equivalente das desigualdades de classe, gênero e raça.

A concentração de renda é o exemplo mais evidente. Depois de cair em 2024, a diferença entre o rendimento do 1% mais rico e o da metade mais pobre da população voltou a aumentar. 

Em 2024, o rendimento médio do 1% mais rico era 30,2 vezes o dos 50% mais pobres. Em 2025, essa diferença aumentou para 31,5 vezes.

Regionalmente, o aumento foi especialmente acentuado no Centro-Oeste, onde a razão entre o rendimento do 1% mais rico e o dos 50% mais pobres passou de 25 para 29,3 vezes. No Sudeste, subiu de 27,4 para 30,3 vezes. Nordeste e Sul, por outro lado, apresentaram redução da desigualdade nesse indicador.

O próprio estudo ressalta que a melhora das condições do mercado de trabalho contribuiu para elevar o padrão de vida da população, mas não modificou substancialmente a maneira como a riqueza produzida no país é distribuída.

 A desigualdade de renda permanece, assim, como um dos principais mecanismos de reprodução das demais desigualdades sociais.

Mulheres negras permanecem na base da pirâmide

As desigualdades também aparecem com força quando os rendimentos são analisados por gênero e raça.

Embora todos os grupos tenham registrado aumento da renda média em 2025, as mulheres negras tiveram o menor crescimento, de 3,7%. O rendimento dos homens negros aumentou 4,1%; o das mulheres não negras, 4,8%; e o dos homens não negros, 6,9%.

Com isso, as mulheres negras permaneceram no menor patamar de renda entre os grupos analisados: receberam em média R$ 2.184 mensais, enquanto os homens não negros chegaram a R$ 5.172.

A distância, inclusive, aumentou. Em 2024, o rendimento médio das mulheres negras correspondia a 43,5% daquele recebido pelos homens não negros. Em 2025, essa proporção caiu para 42,2%.

As diferenças se repetem na pobreza. Entre a população negra, 11,1% das mulheres viviam em domicílios com renda per capita de até um quarto do salário mínimo em 2025, contra 9,5% dos homens negros. Entre a população não negra, os índices eram de 5% entre as mulheres e 4,5% entre os homens.

Fome recua, mas desigualdade racial permanece

A segurança alimentar também melhorou. Entre 2023 e 2024, a proporção da população em situação de insegurança alimentar moderada ou grave caiu de 9,5% para 7,7%.

Novamente, porém, a média nacional esconde diferenças expressivas. A insegurança alimentar moderada ou grave atingia 10% das mulheres negras e 9,7% dos homens negros, contra 4,6% das mulheres e 4,7% dos homens não negros.

O levantamento aponta ainda fortes diferenças regionais. Norte e Nordeste continuam concentrando os maiores percentuais de pobreza, insegurança alimentar, analfabetismo, mortalidade infantil, gravidez na adolescência e homicídios registrados de jovens, além do menor acesso às creches.

Tributação ajuda a manter concentração no topo

Para o Observatório, a persistência da desigualdade não pode ser explicada tão somente pelo mercado de trabalho. O relatório chama atenção para os mecanismos institucionais que favorecem a concentração da riqueza, especialmente o sistema tributário.

Os dados das declarações do Imposto de Renda mostram que a tributação aumenta proporcionalmente apenas até determinadas faixas. 

Entre as rendas mais altas, a carga efetiva volta a cair, fazendo com que pessoas extremamente ricas paguem proporcionalmente menos imposto do que parte dos contribuintes de renda intermediária.

O estudo avalia que essa regressividade ajuda a explicar por que a desigualdade brasileira resiste mesmo em períodos de melhora do emprego e dos salários.

Nesse sentido, o relatório considera um avanço a reforma do Imposto de Renda implementada em 2026, que ampliou a isenção para rendimentos mensais de até R$ 5 mil e estabeleceu uma alíquota mínima efetiva para as rendas mais elevadas. 

A medida, segundo o documento, não é suficiente para enfrentar a concentração de renda, mas representa um passo para aumentar a capacidade redistributiva do Estado.

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