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Adoecimento psicológico dos trabalhadores bate novo recorde no Brasil

Árte Agência Senado

28 de janeiro de 2026

Ansiedade, depressão e outras doenças ligadas ao estresse extremo no trabalho, causado por longas jornadas e pressão sistemática por metas levou o Brasil a bater, pela segunda vez, o recorde de país com o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais em uma década. Dados do Ministério da Previdência Social, obtidos com exclusividade pelo site G1, mostram que o número de licenças voltou a crescer em 2025 e escancara um cenário de adoecimento cada vez mais amplo entre os trabalhadores no Brasil.

Os dados foram divulgados em matéria das jornalistas Poliana Casemiro e Rayane Moura, em janeiro, mês da Campanha Janeiro Branco, voltada exatamente para o debate sobre a importância de se combater as causas que levam o trabalho ao adoecimento mental. No ano passado, o G1 revelou que o Brasil já vivia uma crise de saúde mental, com o maior número de afastamentos por esse motivo em 10 anos, em 2024.

Os dados da Previdência dão conta de que em 2025, o cenário não só se repetiu como se agravou: mais de meio milhão de licenças foram concedidas por transtornos mentais, estabelecendo um novo recorde e ampliando o peso da saúde mental no total de afastamentos. Ao todo o país teve 4 milhões de licenças do trabalho.

Empresas contra maior fiscalização – Em 2025, os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e, somados, já formam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas das doenças da coluna. À época do primeiro recorde, o governo discutia mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passaria a incluir a saúde mental entre os itens fiscalizados no ambiente de trabalho. Após pressão das empresas, porém, a medida foi adiada.

E isso tem um custo alto para os cofres públicos. Só com o custo para o INSS em afastamentos, estima-se que o valor seja perto de R$ 3,5 bilhões. Dados da Previdência Social mostram que foram concedidos mais de 4,1 milhões de afastamentos do trabalho por incapacidade temporária em 2025. O número é o maior em cinco anos e representa um aumento de 17,1% em relação a 2024.

Ansiedade e depressão no topo das doenças – A Previdência informa que as dores nas costas e os problemas na coluna lideraram as concessões de benefícios no país. Em 2025, a dorsalgia (dor nas costas) foi a principal causa de afastamento de licença, com 237.113 pedidos concedidos, mantendo-se no topo do ranking. Na sequência aparecem os outros transtornos de discos intervertebrais, como a hérnia de disco, responsáveis por 208.727 afastamentos.

Mas, se a dor física sempre esteve ocupando os maiores índices na lista, desde o ano passado, o mercado de trabalho vem enfrentando uma nova realidade: os transtornos mentais vêm aparecendo no topo entre as causas de afastamento.

A ansiedade levou a 166.489 afastamentos e a depressão a 126.608. Se somadas as doenças de saúde mental, elas já ultrapassam causas que sempre foram comuns de afastamento, como fratura de tornozelo.

Na categoria bancária dados são alarmantes – O estudo não divide as ocorrências de doenças por categoria. Mas um levantamento publicado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), ano passado, mostrou que a categoria bancária é uma das que tem o maior número de afastamentos por doenças mentais decorrentes do ambiente de trabalho no Brasil.

Dados da Previdência Social, compilados pela plataforma Smartlab, mostram que gerentes de banco ocupam o segundo lugar e escriturários o terceiro no ranking de profissionais com mais pedidos de afastamento por transtornos mentais reconhecidos como doença ocupacional (B91) entre 2012 e 2024. O levantamento aponta que o top 5 das categorias com mais afastamentos por saúde mental no período é composto por motoristas de ônibus, gerentes de banco, escriturários de banco, técnicos de enfermagem e vigilantes.

Epidemia silenciosa nos bancos – Para o secretário de Saúde da Contraf, Mauro Salles, os dados revelam uma crise silenciosa de saúde mental que reflete o modelo de gestão adotado nos bancos. “Até quando iremos assistir a essa situação e não enquadrar as empresas? Isto não é coincidência, é sintoma de um problema estrutural”, alerta o dirigente.

Salles defende que as instituições financeiras assumam responsabilidades concretas e adotem medidas efetivas para prevenir o adoecimento psíquico. “Chegou o momento de exigir que as instituições adotem sistemas de prevenção de adoecimento psíquico — gestão de riscos psicossociais, revisão das metas, combate ao assédio e vigilância algorítmica. Elas precisam responder pelos efeitos dos seus modelos de negócio sobre a saúde dos trabalhadores”, reforça.

Para ele, o Estado e os órgãos fiscalizadores também precisam agir. “Não basta acompanhar. É preciso intervir. É inadmissível que trabalhadores bancários e de outros segmentos econômicos carreguem o peso de lucros, automação e metas agressivas sem que exista regulação eficaz, fiscalização incisiva e sanções reais”, afirma.

A Contraf vem alertando há anos para os impactos do excesso de metas, da sobrecarga de trabalho e das novas tecnologias de controle sobre a saúde dos bancários. A entidade defende o fortalecimento das políticas públicas de saúde do trabalhador e a aplicação efetiva da Lei nº 11.430/2006, que criou o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP), mecanismo que deveria facilitar o reconhecimento de doenças relacionadas à atividade profissional, mas que, segundo especialistas, vem sendo subutilizado.

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