O projeto do candidato de elevar a aposentadoria para 70 anos (homens) e 67 (mulheres) condena o trabalhador à exaustão e ignora a desigualdade social do país.
A promessa de um futuro seguro após décadas de trabalho árduo parece estar se transformando em uma miragem cada vez mais distante para o trabalhador brasileiro. Nos bastidores e nas propostas econômicas que orbitam a campanha de Flávio Bolsonaro, gesta-se uma nova investida contra os direitos sociais: a imposição de idades mínimas extenuantes para a aposentadoria, ventilando patamares de até 70 anos para homens e 67 anos para mulheres. Sob o verniz técnico de “ajuste fiscal” e “sustentabilidade de longo prazo”, esconde-se uma proposta que flerta abertamente com a desumanização do trabalho.
A Desconexão com a Realidade do Brasil Profundo
Discutir exigências de permanência no mercado de trabalho até os 70 anos ignora por completo a realidade socioeconômica do país. O Brasil real é aquele onde a informalidade assola milhões, onde a pejotização precariza as relações de emprego e onde a expectativa de vida saudável varia drasticamente dependendo da região e da classe social.
Exigir que um trabalhador permaneça na ativa até essa idade é, na prática, condená-lo a uma condenação perpétua ao desgaste físico. Para a imensa maioria da população, essa idade mínima não funciona como uma regra de transição, mas sim como uma barreira intransponível: uma licença para morrer antes de conseguir se aposentar.
O Peso Desproporcional sobre as Mulheres
Embora discursos neoliberais tentem emplacar a unificação e o encarecimento das regras sob o argumento de igualdade, a medida desconsidera a histórica divisão sexual do trabalho. As mulheres brasileiras acumulam jornadas duplas ou triplas, somando o trabalho formal ou informal ao peso invisível do cuidado doméstico e familiar.
Elevar o patamar exigido para o descanso significa ignorar que o corpo feminino e a exaustão mental acumulada ao longo de décadas não recebem a devida reparação social. A proposta penaliza justamente quem já carrega as maiores vulnerabilidades do mercado de trabalho.
Para Quem é a Conta?
O aspecto mais revoltante dessas diretrizes econômicas reside na seletividade do sacrifício. Enquanto o trabalhador urbano e rural é instado a suar a camisa até a velhice avançada para “salvar as contas públicas”, categorias de privilégio histórico — como altos cargos do Judiciário e as patentes militares — continuam intocadas em seus regimes próprios e generosas aposentadorias.
A conta da suposta crise fiscal recai, invariavelmente, sobre o elo mais fraco da corrente. Em vez de combater privilégios, taxar grandes fortunas ou auditar a dívida pública que drena o orçamento da União, prefere-se apostar na exaustão do povo.
Conclusão
A nova investida reformista ventilada pela ala bolsonarista revela uma visão de Estado onde o cidadão é visto apenas como engajamento produtivo até a última gota de energia. Negar o direito ao descanso digno na velhice é roubar a perspectiva de uma vida pós-trabalho minimamente humana. O Brasil não precisa de reformas que enterrem o futuro dos seus trabalhadores; precisa, isso sim, de coragem para cobrar de quem realmente pode pagar a fatura do desenvolvimento nacional.