Governo Milei invoca ameaças vagas usadas por militares nos anos 1970 como ‘terrorismo’ e ‘comunismo’
A ditadura militar argentina (1976-83), iniciada com um golpe de Estado que completa 50 anos nesta terça-feira (24), justificava sua brutalidade alegando perigos abstratos como o comunismo e o terrorismo de esquerda. Analistas ouvidos pelo Brasil de Fato afirmam que o atual governo de extrema direita de Javier Milei utiliza a mesma tática para atacar seus inimigos políticos.
A socióloga Valentina Salvi, pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisas Técnicas e Científicas (Conicet), diz que a administração Milei “adotou o discurso de autojustificação do regime militar de que, durante a década de 1970 na Argentina, havia uma guerra interna, uma guerra entre duas forças, as insurgentes e as do Estado, e que houve um avanço do marxismo subversivo”.
A socióloga explica que, desde o final da ditadura em dezembro de 1983, a leitura democrática construída sobre o período foi a de que, ao contrário do que afirmavam os militares, não houve guerra, mas forças insurgentes reprimidas pelo terrorismo de Estado que cometeu violações dos direitos humanos.
“O governo Milei está reproduzindo o discurso ditatorial, justificando as ações das Forças Armadas como excessos individuais e não um plano sistemático de desaparecimentos.” Ela argumenta que essa releitura histórica faz parte de “uma batalha cultural no âmbito das memórias da ditadura”, usada para demonizar oponentes políticos.
“É muito comum ouvir acusações de que os kirchneristas são montoneros, que eram acusados de terrorismo. Os comunistas também são acusados de terrorismo. Assim, cria-se uma espécie de equalização entre montoneros, terroristas e kirchneristas.”
Salvi diz que a tática é usada por Milei porque seus oponentes atuais se identificam com bandeiras levantadas nos anos 1970, como noções de justiça social e igualdade de direitos. “O que está em jogo é justamente isso: os direitos e sua aplicação, como ponto central de combate para a direita.”
A longa noite
As origens do golpe de 76 remontam ao governo anterior — breve interlúdio de três anos entre duas ditaduras militares —, de Juan Domingo Perón. Após sua morte em 74, o governo foi assumido por sua esposa, Eva Perón, e, em 1975, ela ordenou que as Forças Armadas combatessem guerrilheiros de esquerda nas florestas do norte do país.
O fortalecimento militar, com maior autonomia para seus comandantes, acabou criando as condições para o golpe de 24 de março, apoiado pelos Estados Unidos e uma elite econômica e eclesiástica, alegando “a ameaça comunista e terrorista”. O que se seguiu foram sete anos de violência brutal que matou ou fez desaparecer mais de 30 mil pessoas, a maioria jovens, além do uso sistemático de tortura e da supressão de garantias democráticas.
“A lógica nunca foi de contenção, mas de extermínio e aniquilação. Para termos uma ideia da dimensão deste extermínio, se considerarmos a população do Brasil e da Argentina em 1976 e que o número de desaparecidos argentinos é algo em torno de 30 mil pessoas, a mesma proporção aplicada ao Brasil seria de 125.700 brasileiros entre mortos e desaparecidos. Uma geração inteira”, explica o historiador Miguel Stédile.
Nesse período, o governo do general Jorge Videla organizou a Copa do Mundo de futebol em 1978, usada como propaganda do regime e boicotada por astros da época por causa das violações dos direitos humanos. Enquanto a Argentina conquistava seu primeiro título mundial, milhares eram torturados nos porões da ditadura. Quatro anos depois, a junta militar cometeu o que analistas apontam como um dos maiores erros estratégicos da ditadura: a invasão das Malvinas e a consequente guerra com o Reino Unido.
Stédile explica que “a duração da ditadura argentina é relativa, se considerarmos o período completo entre 1966 e 1973, sendo alternada pelo último governo peronista”.
“Mas a sua curta duração em relação à ditadura brasileira se deve ao fato de que os argentinos nunca tiveram um fenômeno como o ‘Milagre econômico’, que garantiu a legitimidade do governo brasileiro com a classe média, além de uma fachada institucional como eleições controladas e bipartidárias, com oposição consentida, e rotatividade dos militares na Presidência.”
“A Argentina da ditadura foi um fracasso econômico permanente, agravada pela aventura desesperada da Guerra das Malvinas”, diz o historiador. Além das mortes de 649 soldados, a guerra fracassada acelerou o fim da ditadura: o presidente, general Leopoldo Galtieri, renunciou ao cargo três dias após a capitulação em junho de 1982, sendo sucedido por outros militares até a transferência para o governo civil de Raúl Alfonsín no ano seguinte.
Semelhanças e causas da volta do fascismo
Entre as semelhanças dos governos da Junta Militar e o de Milei, Stédile cita as políticas econômicas neoliberais, afirmando que “a agenda atual é, em muitos aspectos, o aprofundamento do projeto do ministro da economia da ditadura, José Alfredo Martínez de Hoz, que privilegia uma reprimarização produtiva, abre excessivamente o país comercialmente, depende do FMI e do arrocho salarial, e repreende as organizações sindicais ou populares”.
O historiador diz que “ainda que a ‘guerra contra o marxismo cultural’ de Milei e Bolsonaro seja herdeira da Doutrina de Segurança Nacional [estratégia geopolítica adotada no Brasil, com auge durante a ditadura militar (1964-1985), que priorizava a proteção do Estado contra ‘inimigos internos’, comunistas e oposição, em vez de ameaças externas], talvez o fator mais semelhante seja a subordinação total aos Estados Unidos, por pura convicção ideológica, rifando a soberania nacional sem nenhuma contraparte real”.
A brutalidade da ditadura causou indignação na sociedade argentina, que buscou punir culpados e acertar as contas com sua história. O ex-presidente Videla, condenado à prisão perpétua, foi uma das mais de mil pessoas condenadas por crimes do período. Mais de 60 outros casos ainda esperam para serem julgados.
O trauma foi considerado tão grande que, por muito tempo, se imaginava distante a possibilidade de sucesso político de alguém que minimizasse as violações acontecidas no período.
“Parecia que a Argentina tinha uma espécie de ‘antídoto’ para essas forças políticas, porque havia passado por uma transição particular, que deixou como legado central o respeito aos direitos humanos, a construção da democracia jurídica e os direitos humanos como valor que também deu substância ao desenvolvimento da democracia argentina por quase quatro décadas”, diz Valentina Salvi.
Esses valores, explica ela, levaram, nos últimos anos, à “expansão em termos de direitos das mulheres, das minorias, reconhecimento da vulnerabilidade das minorias, das pessoas LGBT+ e o direito ao aborto”.
O que, então, explica a aderência popular do discurso de Milei?
“Ocorreu uma mudança na sociedade argentina em direção a valores, representações e práticas de direita”, diz a socióloga. Ela explica que “valores mais conservadores, mais reacionários, mais nacionalistas persistiram em um segmento da sociedade argentina, mas não encontraram uma força política que os representasse”. “Ou seja, por quase 40 anos, não havia ninguém em quem votar, e por isso as pessoas votavam em outras opções políticas.”
Além do conservadorismo de extrema direita que despertou de seu sono de 40 anos, Stédile cita como outro fator a percepção de que as alternativas mais à esquerda não ofereciam mais respostas à sociedade.
“A eleição de Milei tem mais relação com o fracasso da centro-esquerda em governar só se dispondo a administrar um Estado falido e com o cansaço da população com a crise e estagnação econômica permanente”, diz ele.
“Quando a esquerda é por demais moderada, a rebeldia acaba sequestrada pela extrema direita.”