Em artigo na The Economist, o diplomata afirma que regras internacionais estão sendo corroídas e defende multilateralismo diante do avanço da lógica da força
O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, o diplomata Celso Amorim, avaliou que o sistema internacional atravessa uma fase de instabilidade profunda, marcada pelo enfraquecimento das normas multilaterais e pelo retorno da força como elemento central das relações entre Estados. A análise foi publicada em artigo na revista The Economist, divulgado segunda-feira (19).
Segundo Amorim, a imprevisibilidade passou a operar como mecanismo deliberado de poder e intimidação no cenário global, substituindo gradualmente regras e compromissos construídos ao longo do século 20.
Para ele, esse movimento corrói pilares como a segurança coletiva, o comércio internacional e a promoção dos direitos humanos, criando um ambiente difícil de reverter.
O ponto de partida do texto é a operação conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela, em 3 de janeiro, que resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro. Amorim descreve o episódio como um marco simbólico, ao romper com a percepção de que a América do Sul permaneceria como uma região imune a intervenções militares externas.
A presença de aeronaves militares sobre uma capital sul-americana, segundo ele, teve um caráter “tragicamente surreal” e levantou dúvidas sobre a própria vigência das regras internacionais.
Na avaliação do assessor, a ação não se assemelha aos golpes latino-americanos das décadas passadas nem aos episódios clássicos da Guerra Fria. Ele compara o impacto visual da captura de um chefe de Estado em exercício a imagens como a prisão de Saddam Hussein no Iraque, ressaltando que, no caso venezuelano, não houve qualquer narrativa de legitimidade política ou institucional.
Amorim argumenta que, após a consolidação de instrumentos como a Carta das Nações Unidas, baseada na soberania dos Estados e na proibição do uso da força, intervenções desse tipo eram vistas como superadas. Essa confiança, porém, teria se dissipado diante do novo contexto internacional, no qual decisões unilaterais ganham espaço.
Para explicar o cenário, o diplomata recorre à analogia com o “princípio da incerteza” da física quântica. Assim como não é possível prever simultaneamente a posição e o movimento de uma partícula, afirma, o comportamento dos Estados tornou-se imprevisível, abrindo espaço para um ambiente em que a capacidade militar tende a definir o grau real de autonomia dos países.
Diante desse quadro, Amorim defende que o Brasil amplie parcerias e preserve o compromisso com o multilateralismo. Segundo ele, princípios como soberania, não intervenção e solução pacífica de controvérsias não devem ser abandonados, mesmo em cenários de crise extrema. A intervenção militar estrangeira, diz, não oferece respostas duradouras.
O assessor também destaca que o Brasil fez uma “aposta existencial na paz”, consagrada na Constituição, tanto no uso exclusivamente pacífico da energia nuclear quanto na prioridade ao diálogo diplomático.
Ao final do artigo, Amorim sustenta que a reforma das instituições internacionais é necessária para ampliar a representação do Sul Global e evitar o avanço de um sistema internacional marcado pela violência e pela ausência de regras compartilhadas.