O papel e a mobilização da juventude, dos movimentos sociais de esquerda, dos sindicatos, dos partidos progressistas, de mulheres, idosos e da direita democrática são fundamentais para defesa da democracia e soberania do Brasil
As mobilizações nas ruas, a conquista das redes sociais e o medo do nazifascismo, amplamente divulgado, derrubaram os erros do campo progressista, que não deram a devida importância à campanha, com a sensação de que a eleição já estava ganha e quase deram vitória ao bolsonarismo no primeiro turno.
Estes movimentos precisam continuar nas ruas e redes digitais, para dar a força necessária na defesa do Estado Democrático e avançar em direitos à classe trabalhadora, sobretudo diante da nova composição do Congresso Nacional.
Fenômeno
Diferente do habitual nas disputas eleitorais brasileiras, seja à presidência da república, seja aos governos estaduais — em que quem lidera o primeiro turno costuma consolidar a vitória —, Lula protagonizou uma recuperação histórica, em apenas três semanas, vencendo o seu oponente Flávio Bolsonaro, com um avanço de praticamente 10 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno.
“O que definiu a virada não foi o retrocesso dos votos na extrema-direita, mas o avanço acelerado que Lula teve nas três semanas de segundo turno. O não bolsonarismo — e não digo apenas a esquerda — foi decisivo: quem elegeu Lula de fato foi a junção da esquerda com a direita democrática”, destaca o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Cervi.
O professor ressaltou ainda que a disputa rompeu a falsa divisão entre o universo virtual e o presencial. “O digital e não digital são apenas diferentes dimensões de um mesmo espaço que é o espaço eleitoral. E, conforme avaliado desde as eleições de 2022, quem ocupa mais os espaços digitais, também ocupa mais as ruas”, explicou o professor.
A grande vitória de Lula deve-se a articulação de vários movimentos, liderados sobretudo por André Janones (deputado federal reeleito Rede/MG) e a construção do Exército de Lula, que conseguiram ocupar mais as ruas e os espaços digitais que o bolsonarismo, mesmo este último tendo sido beneficiado pela Meta (dona das redes sociais Facebook, Instagram e do WhatsApp).
O Exército construído por Janones, com participação de mais 10 milhões de pessoas, conseguiu direcionar esse sentimento de urgência coletiva em defesa da democracia, da soberania nacional, das empresas públicas, das terras raras e dos direitos civis, funcionando como um catalizador da articulação dos campos progressistas nas ruas e nas redes.
Mobilização por direitos contra os ataques do Congresso
Se a vitória no segundo turno garantiu a preservação das instituições e da Constituição Federal de 88, o cenário que se desenha a partir de 2027 exigirá articulação política constante. Isso por causa da composição do Congresso Nacional aprovada nas urnas de aumento da extrema-direita e de setores conservadores, especialmente no Senado, onde o Partido Liberal (PL) obteve o maior crescimento.
“A extrema-direita cresceu no parlamento em todo o mundo, e no Brasil não seria diferente. Diante desse cenário, se não houver continuidade da pressão social contra os exageros da extrema-direita no Congresso, a vida de Lula será muito difícil para governar”, reforçou Emerson Cervi.
O professor acrescentou que, embora o bolsonarismo mantenha uma base eleitoral consistente, a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos amplia descontentamento e as disputas de liderança internas dentro do próprio campo da extrema-direita, no período pós-eleitoral.