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	<title>bolsonaro acuado &#8211; SEEB Santos e Região</title>
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		<title>O preço das vidas e o dilema do novo arranjo político brasileiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gustavo Mesquita]]></dc:creator>
		<pubDate></pubDate>
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					<description><![CDATA[Como o governo Bolsonaro irá lidar com uma crise sanitária, social e econômica quando age para agravá-la ou apenas camufla uma solução? Em março de 2020, o Brasil via surgirem os primeiros casos de infecção pelo novo coronavírus. No final daquele mês, muitos estados entravam em lockdown acompanhando com susto e atraso o que acontecia no [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Como o governo Bolsonaro irá lidar com uma crise sanitária, social e econômica quando age para agravá-la ou apenas camufla uma solução?</p>
<p></p>
<p>Em março de 2020, o Brasil via surgirem os primeiros casos de infecção pelo novo coronavírus. No final daquele mês, muitos estados entravam em lockdown acompanhando com susto e atraso o que acontecia no resto do mundo. Exatamente um ano depois, em um período que mais parece uma década, o país chega à casa dos 300 mil mortos, uma tragédia sem precedentes diante da postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Os erros podem ser enumerados: vacinas escassas, aposta em um tratamento precoce sem efetividade e inexistência de um plano nacional de combate à pandemia. Em um outro plano, mesmo que com ritmos distintos, países que investiram na ciência começam a sentir os efeitos da vacinação. Com uma política externa que em nada contribuiu para ajudar o quadro, o prognóstico é de que o Brasil siga cada vez mais isolado.</p>
<p> </p>
<p>Enquanto o mundo contém a tragédia e começa a pensar em alguma normalidade, o Brasil, com fronteiras fechadas e números de mortos crescentes, lida com vetores internos e externos de pressão que podem levar a um novo arranjo politico. Na prática, a pergunta é: como o governo Bolsonaro irá lidar com uma crise sanitária, social e econômica quando age para agravá-la ou apenas camufla uma solução? Vale lembrar que o governo precisa de uma margem mínima de suporte social (seus apoiadores oscilam entre 20 e 30%), da aquiescência do mercado (sem vacina e “pessoas vivas” não é possível que o dinheiro volte a circular) e da continuidade do apoio político de parte do Congresso (o grupo de partidos que compõe o chamado “centrão” não tardará a abandonar o governo caso o preço do desgaste seja muito caro). Mesmo longe de um dano definitivo, com um processo de impeachment que até agora não decolou, o governo passou a ter importantes flancos abertos. O que se pode ver diante disso?</p>
<p> </p>
<p>Três cenários se apresentam. O primeiro deles diz respeito a um movimento que surgiu de forma latente desde o início da pandemia: um esboço de reação das forças políticas tradicionais diante do negacionismo do governo. A avaliação geral é de que, sendo o presidente um obstáculo para lidar com o Corona vírus, é preciso governar apesar dele. Esse espaço vazio está dado e não passa despercebido de ninguém. Foi nele que os governadores e prefeitos passaram a atuar, inclusive com o aval do Supremo Tribunal Federal (STF), que deu a eles a prerrogativa para decretar lockdown e estabelecer medidas restritivas. A preço de hoje, eles até compram vacinas de forma autônoma, como faz o chamado “consórcio Nordeste” que congrega governadores dessa região do país.</p>
<p> </p>
<p>Visto em plano maior, o terrível rastro da Covid-19 inoculou uma espécie de antígeno nas veias do que alguns chamam de “velha política”. Não é um processo rápido, mas reações aparecem. É como se os atores tradicionais e as instituições tivessem obtido uma oportunidade de se reposicionar. É possível ver que, guardando alguma relação com esse anteparo ao caos feito por governadores, prefeitos e pelo próprio Supremo, existe a chance de uma articulação mais ampla para disputar as próximas eleições presidenciais. É um segundo cenário a se colocar. Porém, talvez não haja tempo, nem uma noção tão clara do perigo de uma autocracia, ou mesmo os diversos projetos individuais invalidem essa manobra.</p>
<p> </p>
<p>Nessa linha de raciocínio, uma peça retornou ao jogo e acelerou essa resposta. No dia 10 de março, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT-SP), novamente elegível após o Supremo o ter anulado de forma provisória suas condenações pela Operação Lava Jato, fez um discurso histórico no qual acenou aos políticos de “centro”, mostrou-se cheio de vigor e bateu na tecla da valorização da ciência, no uso de máscaras e na vacina. O próprio Bolsonaro, que por diversas vezes falou contra a segurança e a eficácia de máscaras e vacinas, sentiu o impacto da fala do seu principal adversário.</p>
<p> </p>
<p>Na verdade, uma mudança pró-vacina já se ensaiava no governo, inclusive por pressão de diversos empresários, mas sem dúvida a fala de Lula teve um efeito catalisador. Isso levou a uma mudança na chefia do Ministério da Saúde e pôs na mesa uma variante do segundo cenário. Falo num quadro pelo qual, na campanha para 2022, os resultados do bolsonarismo seriam postos à prova diante de Lula. Há os que avaliem que seu antagonista reforçará uma polarização pró-Bolsonaro movida pelo antipetismo e há também quem ache que Lula poderá comandar uma frente ampla. O fato é que, de forma até poucos dias impensável, há uma chance real de que um rearranjo se dê tendo um político de esquerda como líder. E, em todo caso, uma reação articulada muda o jogo para as próximas eleições.</p>
<p> </p>
<p>E existe, ainda, o terceiro cenário, em que nem o desastre na condução da pandemia seja suficiente para tirar Bolsonaro da reeleição em 2022. Em todo caso, o que se tem agora é um esgotamento diante do negacionismo que começa a se desenhar e que tende a piorar com um país sem vacina, sem leitos hospitalares e isolado. É como se o componente irracional que sustentou a eleição de um suposto outsider com um discurso antissistema, ainda que pertencente a um longevo baixo clero, estivesse sendo posto à prova pelo preço incontornável da vida humana (e, admita-se, a economia por ela operada). Isso faz com que não apenas o governo seja confrontado como também se desmonte o ódio a questões tão caras às democracias modernas como a ciência e a razão.</p>
<p> </p>
<p>Contudo, há uma ressalva. Se é certo dizer que os candidatos tidos como outsiders representam um expurgo de insatisfações e afetos para o qual a elite política não deu a devida importância, por outro lado, é insustentável governar pelo caos durante muito tempo. É exatamente diante dessa constatação que atores e instituições brasileiras, ainda que de forma canhestra, observam surgir uma possibilidade de rearranjo político, embora não se saiba exatamente que contornos ele poderá ter.</p>
<p> </p>
<p>Fato é que neste ano arrastado, mesmo existindo quem se insurja contra as medidas restritivas, foi se criando uma linha de pensamento comum pró vacina que ultrapassou a bolha bolsonarista. É um limite da crença ideológica diante da realidade. Os gráficos com as vidas perdidas sequer estão mais no campo das previsões. Já são consideráveis os nomes de pessoas conhecidas, parentes e amigos que foram mortos e estão infectados pela Covid-19. Cada relato potencializado pelas redes sociais traz em si uma angústia e uma dor que vão se ampliando em diversos círculos.</p>
<p> </p>
<p>É essa percepção que pode motivar alguma mudança. Contudo, a longo prazo, talvez seja correto pensar não apenas nas respostas que estão sendo dadas por agentes políticos e instituições, mas também num questionamento sobre o papel do Estado. A vida humana tem memória. A comparação com o que o resto do mundo está fazendo vai continuar. Uma hipótese que pode ser levantada é que vai ser difícil fazer uma ode às crenças contra a ciência e a proteção social quando esses forem os elementos centrais de socorro aos que permanecem vivos.</p>
<p> </p>
<p><strong>Grazielle Albuquerque é jornalista e cientista política, pesquisa Sistema de Justiça, em especial sua interface com a mídia, e foi visiting doctoral research no German Institute of Global and Area Studies (Giga), em Hamburgo.</strong></p>
<p>Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil<br />Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil<br />Escrito por: Grazielle Albuquerque</p>
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